Síndrome de Rett: doença rara pode fazer crianças perderem habilidades já adquiridas

O desenvolvimento infantil costuma ser acompanhado por novas conquistas, como aprender a segurar objetos, falar as primeiras palavras e ampliar a interação com outras pessoas. Quando uma criança que já havia adquirido determinadas habilidades começa a perdê-las, porém, é importante investigar o que está acontecendo. Essa mudança pode estar relacionada a diferentes condições de saúde e, em alguns casos, à síndrome de Rett, um transtorno genético raro que afeta principalmente meninas.

Outubro Roxo é uma campanha dedicada à conscientização sobre a síndrome, que reforça a importância de reconhecer os sinais de alerta, ampliar o acesso ao diagnóstico e orientar as famílias sobre as possibilidades de acompanhamento. Embora a condição não tenha cura estabelecida, intervenções individualizadas podem ajudar a controlar complicações, favorecer a comunicação e preservar habilidades funcionais.

O que é a síndrome de Rett?

A síndrome de Rett está associada, na maioria dos casos, a alterações no gene MECP2, localizado no cromossomo X. Esse gene desempenha um papel importante na regulação da atividade de outros genes e no funcionamento do sistema nervoso. “A alteração pode comprometer diferentes aspectos do desenvolvimento, incluindo a coordenação motora, a comunicação e a interação social”, explica Ramon Kruschewsky, neurologista e professor do curso de Medicina do Centro Universitário Unime.

A regressão do desenvolvimento causada pela doença pode ocorrer de maneira gradual ou mais perceptível, dependendo de cada caso. “Um aspecto importante da síndrome de Rett é que a criança pode apresentar um período inicial de desenvolvimento aparentemente esperado e, posteriormente, começar a perder habilidades que já havia adquirido. Essa regressão merece atenção e deve ser investigada, pois não é considerada uma etapa normal do desenvolvimento infantil”, alerta o médico.

A imagem mostra uma criança pequena brincando com um brinquedo educativo de encaixe. Sobre uma mesa de madeira, ela empilha peças circulares coloridas em uma haste, formando uma sequência com tons de laranja, vermelho, amarelo, verde e azul. Outras peças aparecem espalhadas pela superfície.
A síndrome de Rett costuma se manifestar após os primeiros meses de vida da criança (Imagem: Natalya_Maisheva – Shutterstock)

Sinais da síndrome de Rett

Na maioria dos casos, a alteração no gene MECP2 não é herdada dos pais, mas surge de forma espontânea, o que significa que a condição pode aparecer em famílias sem histórico prévio. Embora atinja principalmente meninas, meninos também podem ser afetados, geralmente com manifestações mais graves.

A síndrome de Rett costuma se manifestar após os primeiros meses de vida, embora a idade e a intensidade dos sinais variem entre as crianças. Após um período inicial de desenvolvimento aparentemente esperado, a perda de habilidades tipicamente ocorre entre 1 e 4 anos de idade.

“Entre as mudanças observadas, estão a perda progressiva do uso intencional das mãos, dificuldades na comunicação, alterações na marcha e movimentos repetitivos das mãos, como torcê-las ou esfregá-las”, destaca o médico. A desaceleração do crescimento da cabeça também pode ser um dos primeiros sinais da condição.

Também podem ocorrer alterações respiratórias, crises epilépticas, dificuldades de alimentação, constipação intestinal e problemas relacionados à postura e à mobilidade. Nem todas as manifestações aparecem em todas as pessoas, e sua intensidade pode variar ao longo da vida.

“Quanto mais cedo as alterações são reconhecidas, maiores são as possibilidades de organizar o acompanhamento e orientar a família. O diagnóstico não elimina os desafios da condição, mas ajuda a compreender as necessidades da criança e a planejar os cuidados de forma individualizada”, salienta Ramon Kruschewsky.

O diagnóstico é essencialmente clínico, baseado na história de regressão e nas características observadas, e pode ser confirmado por exame genético.

Síndrome exige mais do que acompanhamento neurológico

Embora seja uma condição que afeta o sistema nervoso, a síndrome de Rett pode repercutir em diferentes funções do organismo. Por esse motivo, o cuidado não deve se limitar ao acompanhamento neurológico.

A fisioterapia pode ajudar na mobilidade, na postura e na prevenção de contraturas. A terapia ocupacional contribui para adaptar atividades e favorecer a funcionalidade, enquanto a fonoaudiologia pode trabalhar a comunicação e a deglutição. Em algumas situações, recursos de comunicação alternativa e aumentativa permitem que a pessoa expresse escolhas, necessidades e sentimentos, mesmo quando não consegue utilizar a fala.

“É importante não confundir dificuldade de comunicação com ausência de compreensão. Cada paciente apresenta características próprias, e a equipe deve buscar formas de reconhecer suas respostas, preferências e possibilidades de interação”, orienta Ramon Kruschewsky.

O acompanhamento também deve considerar questões como nutrição, saúde óssea, função respiratória, alterações gastrointestinais e epilepsia, quando presentes. O planejamento precisa ser revisto ao longo do tempo, de acordo com as mudanças clínicas e as necessidades da pessoa.

No campo do tratamento, além das intervenções de reabilitação, já existe um medicamento específico aprovado para a síndrome, a trofinetida, e avanços como a terapia gênica seguem em estudo, o que reforça a importância do acompanhamento especializado e da continuidade das pesquisas sobre a condição.

Por Camila Souza Crepaldi