Mentira em currículo pode levar a dispensa por justa causa

Mentir em currículo pode fazer você perder o emprego

Ao buscar uma oportunidade no mercado de trabalho, alguns candidatos tentam tornar seus currículos mais atrativos inventando experiências e cursos que na verdade não possuem. Se você apelou para essa prática, saiba que mentiras no currículo podem provocar sua demissão.

Como vimos  no post Demissão, dispensa e justa causa – Você sabe a diferença?, a dispensa com justa causa ocorre quando o empregado comete falta grave. Mentir no currículo ou em uma entrevista de emprego pode justificar esse tipo de dispensa, ainda que já tenha se passado anos desde contratação. Juízes têm entendido que o que vale para esses casos, é a data em que o empregador descobriu ter sido enganado.

Quebra de confiança

Em um caso julgado em junho deste ano pelo Tribunal Regional do Trabalho (TRT) de Campinas – SP (processo nº 0005528-46.2018.5.15.0000), por exemplo, um funcionário foi demitido após dez anos trabalhando na empresa. A organização descobriu, por meio de uma denúncia anônima, que ele não havia concluído o ensino médio, um dos requisitos para a vaga que ocupava, e apresentara, na contratação, um certificado escolar falso.

A demissão do funcionário, que trabalhava como operador de máquinas, ocorreu durante o período em que ele estava afastado das atividades por licença médica. Nessa condição, se não houvesse motivos para a justa causa, o empregado estaria em uma situação de estabilidade. Sendo assim, ele ingressou com uma ação em que pedia para ser reintegrado, ter restabelecido o convênio médico e restituído o pagamento do salário e demais benefícios. Contudo, a decisão da justiça favoreceu a empresa.

O relator do caso, o desembargador Manuel Soares Ferreira Carradita, da 2ª Seção de Dissídios Individuais do TRT de Campinas, interpretou que a dispensa por justa causa se fundamentava pela quebra de confiança, que é necessária à manutenção do vínculo de emprego, já que o funcionário mentiu sobre sua formação e apresentou documento falso.

Como a dispensa por justa causa foi mantida, o funcionário deixou de receber férias e décimo terceiro proporcionais, além de aviso prévio. Ele também perdeu o direito à multa de 40% sobre o valor de FGTS que havia sido depositado pela companhia durante o tempo de serviço.

Falsificar diplomas é crime

Três funcionários de uma outra empresa, que atua no setor metalúrgico, passaram por uma situação semelhante. Eles também foram demitidos por justa causa por mentir a respeito de seus graus de escolaridade. Os três trabalhavam a mais de cinco anos na empresa.

Os funcionários recorreram ao Judiciário, com pedidos de reintegração aos quadros da companhia e indenização por danos morais, mas, em primeira instância, não obtiveram sucesso. Os três casos foram julgados pela Vara do Trabalho de Hortolândia – SP (processos: nº 0010275-05.2017.5.15. 0152, nº 0011005-16.2017.5.15. 0152 e nº 0012301-73.2017.5.15. 0152).

Em um desses processos, a juíza Fernanda Constantino de Campos considerou que o funcionário só havia conseguido ocupar o cargo na empresa por conta da mentira. A juíza destacou ainda que falsificar o certificado poderia ser inclusive tipificado como crime, como está nos artigos 297 e 304 do Código Penal.

A mentira é uma das principais razões para que currículos sejam descartados em processos seletivos

Mesmo que o candidato não chegue a falsificar um diploma, o que aumenta a gravidade do ato, mentir ou exagerar informações sobre suas competências pode prejudicá-lo já no processo seletivo.

A empresa de recrutamento e seleção, RH Robert Half, realizou uma pesquisa com 303 gestores brasileiros e 75% deles afirmaram que já excluíram candidatos de um processo seletivo após perceberem que informações passadas por estes eram mentirosas ou exageradas. As mentiras eram, principalmente, sobre experiência de trabalho (56%), graduação (46%), habilidades técnicas (44%) e idiomas (39%).

Leonardo Berto, gerente de negócios da Robert Half, em conversa com a publicação Valor, alerta que quando o candidato é pego numa situação como essa, durante o processo seletivo, ele acaba colocando em cheque todas as outras informações do currículo, ainda que verdadeiras. “Soa da forma mais negativa possível”, afirmou.

E ainda que a mentira não seja percebida imediatamente e o candidato consiga a vaga, é preciso lembrar que suas habilidades e competências serão testadas de diversas maneiras no dia-a-dia  da empresa. Em outras palavras, se o cargo exige inglês fluente, isso significa que, em algum momento, você precisará utilizar essa competência para executar alguma tarefa. Ou seja, não há como sustentar a mentira indefinidamente. “As companhias contratam muito pelo perfil técnico do candidato, mas demitem pelo comportamental”, acrescenta Leonardo Berto.